A Galecia quando deixava de ser a Gallaecia: assentamentos fortificados no noroeste peninsular

Castro de Viladonga

Quando falamos da Galécia, tendemos a pensar nos limites da atual Galiza. Curiosamente, onde isto é mais comum é no mundo académico. Não são poucos os artigos científicos que ao analisarem a província romana da Gallaecia tomam como referência as fronteiras de hoje. Isto não é apenas um erro em termos analíticos, mas também um problema histórico, já que muitos dos processos durante o período romano, estiveram muito influenciados pelos limites provinciais impostos pelo império. Este é o caso, por exemplo, dos assentamentos fortificados, um fenómeno sobre o qual já temos falado.

Como sabemos, a Galécia foi uma província constituída por três conventos: o conventus lucensis, o conventus asturicensis e o conventus bracarensis, incluindo, durante o século IV, o antiguo conventus cluniacensis. Instituida após a reforma de Diocleciano, depois do século V os seus limites administrativos foram desaparecendo. Ainda que o reino Suevo aproveitou as vantagens de ter uma delimitação tão clara, as suas fronteiras já não seriam as mesmas que durante o período romano. Porém, durante os séculos pós-romanos, e ainda que o conceito de Gallaecia desaparecia progressivamente, este espaço seguiu a ter uma importância significativa, pela construção das identidades e a política da época.

Assentamentos fortificados tardo e pós-romanos no noroeste peninsular

Como sabemos graças aos estudos que temos feito, durante a segunda metade do século IV e durante todo o século V d.n.e. houve uma significativa ocupação e reocupação de assentamentos fortificados em altura. Ainda que este fenómeno foi comum em toda a península ibérica, parece que no caso do noroeste foi inclusive mais importante. Num trabalho recente onde fazemos uma recompilação deste tipo de locais, podemos ver que pelo menos 43 -e com segurança são mais- estiverom ocupados neste tempo. A nossa hipótese é que uma explicação para isto é precisamente a importância da identidade gerada pela delimitação administrativa da provincia romana da Gallaecia, bem como por outros fatores como a geografía e o desenvolvimento das elites tardo-romanas.

Em próximas entradas falaremos em particular destes contextos, sempre com a vista posta a desenvolver as hipóteses propostas e aprofundar num momento decisivo da configuração histórica e política do noroeste peninsular.