A materialidade das elites tardo-romanas e suevas: o sítio de Falperra

Vista parcial do templo paleocristão, durante restauración (Cortez, 1954)

Uma das características mais curiosas dos chamados suevos e da monarquía sueva é que não tem uma materialidade muito diferenciada. Noutras palavras, não existe um conjunto determinado de objectos que sejam distintivos deste grupo de elites militares que chegaram à península ibérica no ano 411 junto a vándalos e alanos e que depois estabeleveram um dos primeiros reinos pós-romanos. Isto marcaria uma diferença com outras das etnias germânicas como os Francos, os Visigodos ou os Lombardos que, no seu processo de etnogênese, geraram uma materialidade característica. Ainda que existem objectos de luxo particulares que sim foram associados aos suevos, caso por exemplo do pente de Castro Ventosa, a fivela de cinto de Baamorte ou o conjunto de joias dos cemitérios de Mérida, não há uma «materialidade sueva» propriamente dita.

Isto é muito interessante por diversos motivos, mas um deles é porque mostra o grande impacto da cultura romana prévia e a capacidade de assimilação da simbologia do poder pela parte do reino suevo. Um dos sítios arqueológicos onde se pode ver isto e o sítio de Falperra, um dos sítios mais singulares do período pós-romano no noroeste peninsular.

Planimetría das estruturas de Falperra

Santa María de Falperra localiza-se a 3 quilómetros ao sul da cidade de Braga. Como sabemos, Braga tornou-se na capital do emergente reino suevo no século V d.n.e. e, portanto o sítio de Falperra foi ligado a este processo. Ainda que decoberto a finais do século XIX, não foi escavado até os anos 50. Desde então, foi objecto de múltiplas escavações, mas os dados destas não estão na sua maioria publicados. Porém, as estruturas exumadas sim estão restauradas.

As escavações mostram a presença de três edifícios de grande tamanho. Um deles, de 25×16 metro e composto por três naves e cabeceira tripartita, é interpretado como uma basílica paleocristã dos séculos V-VI d.n.e., em quanto que os outros dois são interpretados como um edifício senhorial e um edifício doméstico de funcionalidade desconhecida.

Proposta de reconstrucção da basílica

Ainda que os dados sobre o sítio são muito escassos não cabe dúvida de que se trata dum contexto associado com as elites do momento, e a sua proximidade com Braga vincula-o de forma direta com as elites suevas que nos séculos V e VI controlavam a cidade. Uma materialidade propriamente «sueva».

Para mais informação:

Fontes, Luis O. (2017): «O sítio arqueológico da Falperra (Braga)» en J. L. Quiroga (Ed.), In tempore sueborum. El tiempo de los suevos en la Gallaecia (411-585), Ourense, Deputación Provincial de Ourense, pp. 201-204.